Seja bem-vindo ao Abrigo Mental. Você pega o celular para entender uma notícia preocupante. Depois abre outra atualização, lê os comentários, passa para um novo vídeo e percebe que já está há muito mais tempo na tela do que pretendia. Quanto mais notícias ruins aparecem, mais difícil parece simplesmente fechar o aplicativo e seguir com a noite.
Esse padrão ganhou o nome de doomscrolling. A dificuldade está em encontrar um ponto de encerramento: mesmo depois de muitas atualizações, pode continuar a sensação de que ainda falta saber alguma coisa.
O que é doomscrolling
Doomscrolling é uma forma persistente ou repetitiva de se envolver com informações online predominantemente negativas, ameaçadoras ou angustiantes, muitas vezes com dificuldade para interromper a atividade.
Isso é diferente de simplesmente ler uma notícia ruim. Também não é sinônimo de usar muito as redes sociais ou passar bastante tempo na internet. O foco está na combinação entre o conteúdo negativo, a repetição da busca e a dificuldade de se desligar.
Uma revisão que selecionou estudos por critérios definidos e combinou resultados com cálculos estatísticos, publicada na Frontiers in Psychology em 18 de setembro de 2026, reuniu 44 estudos únicos sobre o tema. Os pesquisadores encontraram relações observadas entre maior doomscrolling e ansiedade, depressão, sofrimento psicológico, menor bem-estar psicológico e menor satisfação com a vida.
Esses resultados precisam ser lidos com cautela. A própria revisão classifica a certeza das evidências como muito baixa e destaca limitações como grandes diferenças entre os estudos e maior presença de pesquisas que observam as pessoas em um único momento.
Em outras palavras, existe uma relação observada, mas não é possível afirmar que o doomscrolling, sozinho, cause ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental.
Como aparece na vida real
Na rotina, o doomscrolling pode começar com uma intenção bastante compreensível: descobrir o que aconteceu, acompanhar uma situação preocupante ou tentar reduzir a incerteza.
O problema aparece quando a busca não encontra um ponto de encerramento. Uma atualização leva a outra. Depois surge um vídeo relacionado, uma publicação alarmante, uma nova manchete ou mais uma tentativa de descobrir se algo mudou.
A pessoa pode perceber que continua rolando mesmo depois de reconhecer que aquilo está piorando seu humor ou ocupando um horário que pretendia usar para outra coisa. À noite, esse tempo pode avançar sobre o período reservado ao sono.
Um estudo que observou 663 adultos em um único momento encontrou uma relação entre maior doomscrolling e pior qualidade do sono percebida pelos próprios participantes. A intensidade da relação observada foi pequena, e os próprios autores ressaltam que a forma como o estudo foi feito não permite determinar causa e efeito.
Como o doomscrolling se conecta às redes sociais
O doomscrolling faz parte de uma questão maior sobre como usamos ambientes digitais em momentos de medo, incerteza ou necessidade intensa de informação.
A Mayo Clinic descreve uma dinâmica simples: diante de algo incerto ou ameaçador, procurar informação pode parecer uma forma de recuperar controle. Mas, quando a busca continua entregando conteúdos negativos, ela pode aumentar o alerta em vez de encerrá-lo. Novidade e ameaça também tendem a capturar nossa atenção, o que ajuda a explicar por que é difícil abandonar a tela no meio desse processo. Essa é uma explicação possível do ciclo, não uma causa comprovada para cada pessoa.
A relação entre redes sociais e saúde mental envolve também a forma como as plataformas participam da rotina. No doomscrolling, o conteúdo negativo e a busca repetida por atualizações são o centro dessa dificuldade de sair da tela.
Quando merece atenção
Não existe um número universal de minutos que transforme a leitura de notícias em um problema. O que merece atenção é o efeito que esse hábito passa a ter na vida.
O hábito merece mais atenção quando a pessoa percebe repetidamente que gostaria de parar, mas continua; quando o consumo invade o horário destinado ao sono; quando termina a sessão mais angustiada ou alerta; ou quando a busca por atualizações começa a ocupar um espaço desproporcional na rotina.
Quando essa dificuldade persiste e atrapalha o sono ou outras partes do dia, um psicólogo pode ajudar a compreender o padrão e trabalhar formas de lidar com ele. É possível contar em que horários ou situações a rolagem acontece, o que dificulta encerrá-la e como o sono e a rotina foram afetados, sem precisar chegar com um diagnóstico ou registro formal.
O que pode ajudar no dia a dia
Reduzir doomscrolling não exige abandonar as notícias nem fingir que acontecimentos difíceis não existem. A proposta é recuperar alguma escolha sobre quando se informar e quando encerrar a busca.
A Mayo Clinic recomenda limitar o tempo dedicado a esse consumo e substituir parte do período de tela por atividades fora do fluxo contínuo de notícias.
- Defina o encerramento antes de começar. Escolha até que horário vai acompanhar as notícias e programe um único aviso ou temporizador para esse limite. Quando ele chegar, encerre a sessão sem tentar decidir de novo se já encontrou informação suficiente para se sentir seguro.
- Feche o aplicativo ao encerrar. Afaste o celular para que a próxima atualização não dê continuidade automática à rolagem.
- Proteja o horário destinado ao sono. Combine previamente um horário para terminar as notícias e deixe o celular fora do alcance durante o período reservado para dormir.
- Troque parte desse tempo por algo fora do feed. Depois de encerrar, passe para uma atividade offline que tenha significado para você, como conversar com alguém ou retomar uma leitura fora da tela.
Acompanhar acontecimentos difíceis pode continuar fazendo parte da vida sem ocupar toda a noite à espera de uma atualização que finalmente traga segurança. Ter um encerramento combinado permite devolver espaço ao sono e ao que ficou fora da sequência de publicações.
Quem vive preso à sequência de notícias pode se beneficiar dessa compreensão; compartilhar a leitura é uma forma de fazê-la chegar a outra pessoa. O Abrigo Mental também recebe apoio voluntário de quem deseja ajudar a manter conteúdos responsáveis e acessíveis sobre saúde mental.
Fontes consultadas
- Frontiers in Psychology — Doomscrolling, mental health, and psychological well-being in adolescents and adults: a systematic review and meta-analysis — Revisão sistemática e meta-análise sobre associações entre doomscrolling, saúde mental e bem-estar psicológico.
- Mayo Clinic — Doomscrolling: especialista compartilha dicas para parar de rolar a tela e proteger a saúde mental — Explica o ciclo de busca por informação, atenção a conteúdos ameaçadores e estratégias cotidianas para interromper a rolagem.
- BMC Psychology — The role of FoMO and nomophobia in explaining the relationship between doomscrolling and poor sleep quality — Estudo transversal com adultos sobre a associação entre doomscrolling e pior qualidade subjetiva do sono.