Seja bem-vindo ao Abrigo Mental. O termo “esquizofrenia residual” pode dar a impressão de que existe uma espécie de fase final, sequela inevitável ou forma permanente da esquizofrenia. Essa leitura, porém, não corresponde bem ao significado histórico da categoria.
Na CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão), “residual” era um subtipo específico, identificado como F20.5. A CID-11 (Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão) mudou essa organização: nela, o diagnóstico não é mais dividido dessa forma, embora sintomas persistentes e diferentes fases da esquizofrenia ao longo do tempo continuem sendo descritos.
O que era esquizofrenia residual
Na CID-10, publicada pela Organização Mundial da Saúde, F20.5 correspondia à esquizofrenia residual.
Essa categoria descrevia uma fase de longa duração após uma fase anterior em que havia ocorrido pelo menos um episódio psicótico (que pode incluir crenças mantidas apesar de evidências contrárias ou percepções sem fonte externa) compatível com esquizofrenia. Na fase chamada residual, o que mais se destacava era a persistência de sintomas negativos, como redução da iniciativa, da fala ou da expressão emocional.
A CID-10 também estabelecia um requisito específico de duração: durante pelo menos um ano, delírios (crenças mantidas apesar de evidências contrárias) e alucinações (percepções sem uma fonte externa) deveriam estar mínimos ou substancialmente reduzidos, enquanto os sintomas negativos permaneciam presentes.
Esse período faz parte da avaliação histórica de F20.5; não é um teste atual de autodiagnóstico nem um prazo para esperar atendimento.
Para compreender a esquizofrenia de maneira mais ampla, sem reduzi-la a uma fase ou a um antigo subtipo, o artigo sobre o que é esquizofrenia apresenta o contexto geral do transtorno.
Como os sintomas persistentes eram descritos
Na antiga categoria F20.5, os chamados sintomas negativos ocupavam uma posição central.
A CID-10 descrevia, entre outros sinais:
- lentificação psicomotora, com movimentos e respostas mais lentos;
- redução da atividade;
- embotamento afetivo, isto é, menor expressão das emoções;
- passividade ou pouca iniciativa;
- redução da fala;
- dificuldades de autocuidado ou de participação na vida social.
Esses sinais isolados não permitiam concluir que alguém tinha esquizofrenia residual. A definição dependia também da ocorrência anterior de psicose e do desenvolvimento do transtorno ao longo do tempo, descritos na seção anterior.
A CID-10 reconhecia que esses sintomas poderiam permanecer por um período prolongado, mas registrava que eles não eram necessariamente irreversíveis.
Chamar a categoria de “residual” não autorizava concluir que a pessoa havia chegado a um estado permanente, que não haveria mudança possível ou que aquele momento representava inevitavelmente o destino do transtorno.
O que mudou na classificação atual
A CID-11 deixou de dividir a esquizofrenia nos antigos subtipos, incluindo o residual.
Na CID-11, o profissional pode descrever os sintomas negativos e como a esquizofrenia se desenvolve ao longo do tempo sem usar um subtipo residual. Remissão é o nome usado quando os sintomas diminuem a ponto de os requisitos completos para o diagnóstico deixarem de estar presentes.
A própria classificação contemporânea ainda reconhece que podem existir fases residuais entre episódios agudos.
Uma fase residual descreve um momento do desenvolvimento do transtorno ao longo do tempo. Já “esquizofrenia residual” era um subtipo formal da CID-10.
Na CID-11, remissão parcial indica que os requisitos completos para esquizofrenia não foram preenchidos durante o último mês, embora alguns sintomas clinicamente significativos ainda estejam presentes. Esse intervalo descreve como o profissional avalia o desenvolvimento do transtorno ao longo do tempo; não é um teste pessoal nem uma orientação para aguardar cuidado.
Isso não significa que “remissão parcial” seja apenas um novo nome para esquizofrenia residual. São formas diferentes de organizar e descrever o desenvolvimento do transtorno ao longo do tempo.
Quando o termo residual merece contexto
A expressão “esquizofrenia residual” pode aparecer em registros de F20.5 ou em textos baseados na CID-10. Já uma referência a fase residual ou remissão pode descrever um momento do desenvolvimento do transtorno ao longo do tempo, sem nomear esse subtipo.
No Brasil, registros em CID-10 podem permanecer durante a transição. A Nota Técnica nº 91/2024 do Ministério da Saúde prevê o início do uso da CID-11 nos sistemas que registram e acompanham informações sobre a saúde da população em janeiro de 2027.
Como interpretar essa nomenclatura com cuidado
Confira no documento qual classificação e qual código foram utilizados. Observe também se “residual” aparece como nome do diagnóstico ou como descrição de como o transtorno se desenvolve ao longo do tempo; o contexto da frase ajuda a separar esses usos, sem precisar refazer uma avaliação por conta própria.
A palavra “residual” pode carregar uma ideia de permanência que a própria classificação histórica não obrigava. Entender como a esquizofrenia se desenvolve ao longo do tempo exige mais contexto do que transformar uma fase do transtorno em um rótulo definitivo.
Um nome em um registro de atendimento de saúde pode pesar mais quando parece anunciar um destino. Leve esta explicação a quem também precisa dessa clareza, compartilhando o conteúdo; apoiar voluntariamente o Abrigo Mental é outra forma de ajudar o projeto a continuar produzindo informação responsável.
Fontes consultadas
- Organização Mundial da Saúde — The ICD-10 Classification of Mental and Behavioural Disorders: Clinical descriptions and diagnostic guidelines — Fonte oficial para a categoria histórica F20.5, sua definição, sintomas descritos e requisitos de curso.
- Organização Mundial da Saúde — Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders — Fonte oficial para a organização contemporânea da esquizofrenia, qualificadores de curso, remissão e descrição de fases residuais.
- World Psychiatry — Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders — Documenta a retirada dos antigos subtipos de esquizofrenia e a adoção de uma abordagem dimensional.
- Epidemiology and Psychiatric Sciences — Symptom rating scales for schizophrenia and other primary psychotic disorders in ICD-11 — Discute a proposta de avaliação dimensional de sintomas durante a elaboração da CID-11, em apoio ao contexto histórico; a classificação final é fundamentada no manual da OMS.
- Dialogues in Clinical Neuroscience — Changes from ICD-10 to ICD-11 and future directions in psychiatric classification — Contextualiza as mudanças da CID-10 para a CID-11, incluindo os qualificadores de sintomas e de curso dos transtornos psicóticos primários.
- Ministério da Saúde — Nota Técnica nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS — Contextualiza a transição brasileira para a CID-11.