Seja bem-vindo ao Abrigo Mental. O uso de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” cresceu rapidamente, junto com uma dúvida delicada: eles podem causar depressão, ansiedade, irritabilidade ou pensamentos suicidas? Relatos individuais e investigações feitas por órgãos responsáveis pela segurança dos medicamentos deram força à preocupação, mas a resposta precisa separar suspeita de efeito comprovado.
Os estudos ajudam a investigar essa possibilidade, mas suas respostas dependem de quem foi acompanhado e do que foi medido. Para quem percebeu uma mudança no humor, essa diferença importa na hora de conversar com o médico.
O que são as chamadas canetas emagrecedoras
“Caneta emagrecedora” é uma expressão popular, não o nome de um único grupo de medicamentos ou de um único tratamento. Ela costuma incluir medicamentos que imitam a ação do GLP-1 e outros que combinam essa ação com a do GIP, dois hormônios produzidos no intestino e envolvidos no controle do açúcar no sangue. Dependendo do produto e dos usos autorizados, esses medicamentos podem ser usados no tratamento do diabetes tipo 2, da obesidade ou do sobrepeso em situações específicas.
O GLP-1 é um hormônio relacionado ao controle do açúcar no sangue, à sensação de já ter comido o suficiente e ao apetite. Os medicamentos que reforçam essa ação podem reduzir a fome e a quantidade de comida que a pessoa consome. Como o GLP-1 também está ligado ao funcionamento do sistema nervoso, pesquisadores estudam possíveis efeitos sobre a motivação e o prazer, a alimentação, a atenção, a memória, o raciocínio e a saúde mental. Isso não transforma esses medicamentos em antidepressivos nem permite atribuir a eles qualquer alteração emocional.
Por que surgiu a preocupação com humor e saúde mental
A preocupação ganhou força em 2023, quando órgãos responsáveis pela segurança dos medicamentos passaram a investigar relatos de pensamentos de suicídio e de atos de se machucar de propósito em pessoas que utilizavam alguns desses medicamentos. Relatos que as pessoas enviam por iniciativa própria ajudam a acompanhar a segurança dos medicamentos depois que começam a ser usados, pois podem revelar problemas raros que não apareceram claramente nos estudos feitos para aprovar os medicamentos. Mas relatar que um sintoma surgiu depois do uso não demonstra, por si só, que o medicamento o provocou.
Essa distinção é especialmente importante para pessoas com obesidade ou diabetes, que também podem ter depressão ou ansiedade, enfrentar preconceito relacionado ao corpo, apresentar dificuldades para dormir ou fazer outros tratamentos. Mudanças de peso, expectativas sobre aparência e a experiência de tratar um problema de saúde duradouro também influenciam o bem-estar. Investigar uma possível reação exige levar em conta a influência desses fatores na análise e verificar se o risco realmente aparece com mais frequência entre usuários do medicamento.
O que as pesquisas mostram sobre depressão, ansiedade e humor
Uma análise estatística de resultados de vários estudos (metanálise), publicada no JAMA Psychiatry em 2025, reuniu 80 estudos clínicos em que os participantes foram distribuídos entre grupos por sorteio (ensaios clínicos randomizados), com 107.860 participantes com sobrepeso, obesidade ou diabetes. Em comparação com placebo (substância sem o componente do medicamento que atua no organismo), os medicamentos que imitam a ação do GLP-1 não aumentaram de forma significativa, segundo os testes estatísticos, os problemas de saúde mental graves ou não graves e não pioraram sintomas de depressão. O estudo encontrou ainda pequenas melhorias em alguns aspectos avaliados da qualidade de vida e da forma de se alimentar, mas esses resultados não autorizam usar esse grupo de medicamentos como tratamento de problemas de saúde mental.
A revisão excluiu estudos centrados em pessoas com transtornos de saúde mental ou do sistema nervoso que já existiam antes da pesquisa, o que limita o uso de seus resultados para esses grupos. Além disso, havia poucos dados para combinar, por meio de cálculos estatísticos, as mudanças nas pontuações de avaliações específicas de ansiedade e de pensamentos ou comportamentos suicidas, embora esses temas também aparecessem na avaliação de problemas de saúde indesejados registrados durante os estudos.
Outra revisão sistemática — que reúne estudos com métodos definidos de busca e seleção — e metanálise de 2026 avaliou 82 estudos e também não encontrou associação consistente com depressão ou ansiedade. A qualidade de parte das evidências sobre saúde mental e funcionamento do sistema nervoso, porém, foi classificada como moderada, baixa ou muito baixa. O cenário é tranquilizador quanto a um aumento geral de risco, mas ainda exige estudos que acompanhem especificamente a saúde mental e por mais tempo.
As pesquisas citadas não sustentam a afirmação de que as canetas, como grupo de medicamentos, causam depressão. Seus resultados descrevem tendências em grupos estudados e deixam espaço para investigar mudanças individuais.
Canetas emagrecedoras aumentam o risco de pensamentos suicidas?
Esse foi o ponto mais investigado pelas autoridades. Em abril de 2024, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos concluiu que as evidências disponíveis não sustentavam uma relação de causa e efeito entre os medicamentos que imitam a ação do GLP-1 e pensamentos ou comportamentos ligados ao suicídio ou a se machucar de propósito.
Em janeiro de 2026, a FDA (agência dos Estados Unidos que avalia e fiscaliza medicamentos) chegou a uma conclusão semelhante após uma revisão mais ampla. A agência analisou 91 estudos que compararam o medicamento com placebo, envolvendo 107.910 participantes, e não encontrou aumento de pensamentos ou comportamentos suicidas. Também não observou aumento de problemas importantes de saúde mental, como ansiedade, depressão, irritabilidade ou psicose (alterações importantes na percepção ou na interpretação da realidade). Com base no conjunto das evidências, a FDA solicitou a retirada do alerta específico sobre pensamentos e comportamentos suicidas das orientações para profissionais sobre o uso dos medicamentos desse grupo para redução de peso que traziam o aviso nos Estados Unidos.
Essa conclusão sobre a segurança dos medicamentos é importante, mas não torna pensamentos de morte ou atos de se machucar de propósito menos sérios. A causa pode ser outra, pode haver um transtorno mental ao mesmo tempo ou pode existir uma combinação de fatores que exige atendimento rápido. O risco deve ser avaliado pela situação da pessoa, e não pela tentativa de provar primeiro se o medicamento foi responsável.
Atenção: pensamentos de suicídio, autoagressão ou risco imediato à própria integridade exigem cuidado urgente. Em risco físico iminente, acione o SAMU 192 ou procure uma UPA ou pronto-socorro. Para apoio emocional e escuta, o CVV atende gratuitamente pelo 188; ele não substitui atendimento médico de emergência.
Por que alguém pode se sentir emocionalmente diferente durante o tratamento
Uma mudança de humor durante o tratamento pode ter várias explicações. Enjoo persistente, alimentação muito reduzida, sono ruim, desconforto físico e queda de energia podem afetar o dia a dia. A relação com a comida e o papel que ela tem na rotina também podem ser assuntos úteis na conversa com o profissional, sem presumir que expliquem uma mudança de humor.
Expectativas sobre o peso, cobrança com a aparência e medo de recuperar peso são outros aspectos que podem ser discutidos nessa avaliação. Quem vive episódios de perda de controle ao comer pode precisar diferenciar redução do apetite de compulsão alimentar, que envolve fatores próprios ligados ao comportamento e às emoções.
Quem merece acompanhamento mais atento
Quem tem depressão, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar, histórico de autoagressão, transtornos alimentares ou usa outros medicamentos que afetam o sistema nervoso precisa informar esse histórico ao médico que receitou o medicamento. A decisão sobre o tratamento é individual: essas informações sobre a saúde da pessoa não permitem concluir, por si sós, que a medicação seja segura ou que não deva ser usada por razões de saúde.
Um estudo nacional publicado no The Lancet Psychiatry em 2026 acompanhou, por registros de saúde da Suécia, pessoas com depressão, ansiedade ou ambos que usavam medicamentos para diabetes. Não encontrou sinal de piora geral associado aos medicamentos que imitam a ação do GLP-1; algumas análises mostraram menor risco de piora. Esses resultados não podem ser aplicados a qualquer pessoa em tratamento para emagrecer nem, automaticamente, a outros diagnósticos de saúde mental. Como o estudo analisou o que ocorreu sem determinar qual tratamento as pessoas receberiam, os resultados também não provam que a medicação proteja contra a piora nem justificam receitá-la para tratar depressão ou ansiedade.
Para entender melhor quando perda de interesse e prazer pode fazer parte de um conjunto de sintomas de depressão, o conteúdo sobre depressão e seus sinais pode ajudar a organizar essa diferença sem transformar um sintoma isolado em diagnóstico.
O que fazer se o humor mudar depois de iniciar o medicamento
Se surgir tristeza persistente, perda importante de interesse, facilidade incomum para se irritar, ansiedade intensa ou outra mudança que atrapalhe a rotina, entre em contato com o médico que acompanha o uso do medicamento para investigar o que está acontecendo. Não é necessário chegar à consulta sabendo a causa. Informações simples ajudam: quando a mudança começou, se apareceu após início ou aumento de dose, como está o sono, a alimentação, a energia e se houve alteração importante na rotina ou em outros tratamentos.
Informe também os medicamentos que usa para saúde mental e converse com o médico que os receitou diante dessas mudanças. Não ajuste nem interrompa esses tratamentos por conta própria: parar de repente pode provocar reações à interrupção do medicamento ou piorar os sintomas.
Converse com o profissional que receitou a caneta antes de interrompê-la ou modificar a dose por receio de um efeito sobre a saúde mental. A decisão pode depender da intensidade dos sintomas, do motivo pelo qual o medicamento foi receitado, de outros efeitos indesejados e das alternativas disponíveis. No Brasil, a Anvisa reforçou as regras para a venda dos medicamentos que imitam a ação do GLP-1, exigindo que a farmácia retenha uma via da receita, em um contexto de uso crescente, problemas de saúde relatados durante o tratamento e necessidade de acompanhamento responsável.
Uma mudança emocional durante o tratamento merece ser investigada mesmo quando os resultados dos estudos são tranquilizadores. A avaliação do que mudou naquela pessoa permite decidir o cuidado sem depender de provar primeiro que a caneta foi a causa.
Se esta explicação ajudou a separar relatos assustadores do que a ciência realmente consegue afirmar, compartilhá-la pode ajudar outra pessoa a tomar decisões com menos medo e mais informação. E, se desejar contribuir para que o Abrigo Mental continue produzindo conteúdos independentes e responsáveis sobre saúde mental, o apoio ao projeto é sempre voluntário e bem-vindo.
Fontes consultadas
- FDA — FDA Requests Removal of Suicidal Behavior and Ideation Warning from GLP-1 RA Medications — Comunicação de segurança de janeiro de 2026 com a revisão sobre ideação e comportamento suicida.
- European Medicines Agency — Meeting highlights from the PRAC 8-11 April 2024 — Conclusão europeia da revisão de segurança sobre pensamentos suicidas e autoagressão.
- JAMA Psychiatry — Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists and Mental Health — Revisão sistemática e metanálise de ensaios randomizados sobre eventos psiquiátricos, sintomas e qualidade de vida.
- Clinical Therapeutics — Effect of GLP-1 Receptor Agonists on Neuropsychiatric Outcomes — Revisão sistemática e metanálise de 2026 sobre diferentes desfechos neuropsiquiátricos.
- The Lancet Psychiatry — Association between GLP-1 receptor agonist use and worsening mental illness — Coorte nacional com pessoas previamente diagnosticadas com depressão ou ansiedade.
- Anvisa — Medicamentos agonistas GLP-1 só poderão ser vendidos com retenção da receita — Contexto regulatório brasileiro sobre prescrição, dispensação e uso responsável.
- National Institute of Mental Health — Mental Health Medications — Orientações sobre comunicação de medicamentos em uso, acompanhamento e riscos de ajustes ou interrupção sem orientação do prescritor.
- Ministério da Saúde — Suicídio: prevenção — Referência para busca de atendimento em situações de risco e distinção entre serviços de urgência e apoio emocional.